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“Ilha do Medo” e o dilema gerado
Postado por bega em Cultura , 20/04/2010 às 21:14
Desde quando me comprometi a cuidar desse espaço, senti a grande dificuldade que é falar sobre cinema. É preciso pesar vários fatores até se chegar a um denominador comum que estabeleça um grau regular de comunicação com a maioria dos leitores. Além disso, fardo maior é comentar as produções falando o mínimo possível do desenrolar de sua história, evitando sempre os terríveis spoilers, muito comuns em comunidades ou fóruns que discutem séries televisivas. Verdade seja dita, me sentia, e ainda me sinto, um tanto quanto incomodado ao ler uma crítica, ou comentário, sobre algum filme onde estejam citações literais de cenas e momentos importantes da obra, as quais eu acredito serem imprescindíveis para que o espectador entre, envolva-se e sinta o que viu.
No meu julgamento, descrever e analisar cenas é um recurso que deve ser usado – quando usado – com cuidado, pois, muitas vezes, o que ocorre em um momento cenográfico é mais importante e interessante do que o próprio final da história, como por exemplo em obras biográficas, onde o desfecho já é sabido.
Expus isso pelo fato de ter visto na última semana “Ilha do Medo”, e não enxergar outra saída para comentar sobre minhas impressões sem relatar uma cena que seja.
Depois de pensar um pouco sobre o que vi e sobre os filmes de Scorcese que já assisti (que confesso não terem sido muitos) achei uma solução interessante para meu dilema: falar sobre o que esse bom diretor faz muito bem, ou seja, o seu célebre ofício de dirigir.
É incrível sua consciência de diretor, de alguém que sabe da responsabilidade de guiar milhões de olhares para o objetivo que deseja. É fascinante perceber como ele consegue nos conduzir por um caminho que, de repente, se abre em uma opção possível, porém, improvável de acontecer. Em “Ilha” isso acontece, com menos intensidade do que em “Os Infiltrados”, mas acontece.
Com mais uma boa atuação de Leonardo diCaprio como ator principal, “Ilha do Medo” se desenrola de maneira inteligente, analisando a loucura humana como mais uma realidade criada pelo ser humano e não somente um fator trágico, ou até mesmo, cômico. Com diálogos importantíssimos para se compreender o que acontece, e um ligeiro clima noir, nada é entregue de bandeja ao espectador, forçando-o a prestar atenção em cada novidade.
Nessa sua mais nova empreitada, Scorcese explora mais a tensão do que o próprio medo que assusta e nos mostra, de novo, que um filme não se resolve nos 15 minutos finais, mas sim, nos 15 segundos que lhe restam antes dos créditos subirem e a sala ficar vaga para uma próxima projeção.